Aos 85 anos, Roberto Carlos merece todas as flores em vida
- Segunda-Feira, 19 Abri
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Roberto Carlos completa 85 anos hoje, domingo, 19 de abril, dia em que faz show em Cachoeiro de Itapemirim (ES), cidade natal do artistaDivulgação♫ ANÁLISE♬ Uma das mais completas traduções do caráter conservador e contraditório do povo brasileiro, Roberto Carlos completa 85 anos neste domingo, 19. A festa será no palco. Como já fez em outros aniversários, o artista capixaba fará show em Cachoeiro de Itapemirim (ES), cidade natal onde veio ao mundo em 19 de abril de 1941, no berço de família de poucos recursos financeiros. O cantor fará o mesmo show de sempre, da interminável turnê que passou a se chamar “Eu ofereço flores” a partir de março de 2024 para promover a homônima música inédita lançada por Roberto em novembro de 2023. Sim, há décadas, ao fim de cada apresentação, Roberto Carlos oferece flores para os súditos do cantor entronizado na memória nacional com o epíteto de “Rei”. Mas o fato é que Roberto é que deveria receber todas as flores em vida. Dono de cancioneiro que totaliza 733 obras, de acordo com levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), Roberto Carlos é um dos maiores cantores e compositores do Brasil de todos os tempos. A música de Roberto sempre tocou o coração do povo brasileiro, mas ele nunca foi devidamente reconhecido pelos críticos de música e pela elite cultural do Brasil na dimensão do talento e da contribuição que deu para a música brasileira. É fato que Roberto adotou uma imagem cristalizada nos últimos 40 anos. O show é sempre o mesmo. A postura do artista é extremamente conservadora na música e na vida. Contudo, nada nem ninguém apagará o brilho daquelas canções do Roberto. E, nada importa, são bonitas as canções. A maioria delas, ao menos. A produção do compositor no período de 20 anos que vai de 1964 a 1983 é suficiente para garantir a Roberto Carlos um lugar de honra no panteão da música brasileira. E, nesse sentido, vale em 2026 o escrito em 2021 para saudar os 80 anos do artista. A música de Roberto Carlos, sobretudo a feita a partir da década de 1970, é o retrato ainda perene de um Brasil tão moralista quanto sentimental e sensual. Um Brasil de fé professada em cultos de diversos credos, mas oficialmente católico, em que pese o crescimento contínuo dos evangélicos. Um Brasil pretensamente liberal que volta e meia se posiciona a favor de retrocessos culturais e sociais. Um Brasil contraditório, enfim. O fato é que, mesmo conservador, Roberto Carlos soube caminhar da juventude até os 85 anos festejados hoje. Nos anos 1960, Roberto Carlos simbolizou a rebeldia juvenil propagada por rocks de motores alavancados por automóveis possantes, dirigidos na alta velocidade das paixões primaveris. No reino do iê-iê-iê, Roberto comandou de agosto de 1965 a janeiro de 1968 a Jovem Guarda, movimento pop pretensamente contestador, mas desde o início encampado pelo sistema. O então “Rei da juventude”. ajudou a mudar o comportamento de jovens tachados de “alienados” por ouvirem rock e a música pop exportada para o Brasil pelo mundo então dominado pelos Beatles. De todo modo, cabe ressaltar que, mesmo no reinado da rebeldia juvenil, os códigos da moralidade jamais foram aviltados por Roberto, encarnação do bom moço de olhar invariavelmente triste estampado nas capas dos LPs. Sem a fama de mau alimentada por Erasmo Carlos (1941 – 2022), parceiro na composição da maior parte da grande obra, Roberto personificou o amante apaixonado que, sensível, sofria por amor. Finda a Jovem Guarda, Roberto orquestrou transição inteligente para o mundo adulto. A partir de 1969, o cantor flertou com o soul e o funk em momentos inspirados da discografia, mas, acima de tudo, investiu nas baladas românticas, tônica do cancioneiro do artista nos anos 1970. Nesta década, o romantismo do repertório de Roberto Carlos ficou progressivamente mais sensual – mas sem jamais afrontar a moral e os bons costumes defendidos pelos súditos, tão conservadores quanto o “Rei” que idolatram com inabalável fervor – e passou a conviver com manifestações da fé católica, com canções em defesas do meio ambiente e com eventuais incursões pelo repertório de compositores associados a MPB, como Caetano Veloso, Djavan e Fagner. Sem se abalar com os ataques das elites culturais representadas pelos críticos, Roberto Carlos segue em 2026 pela mesma estrada que pavimentou a partir de 1970 com extrema coerência ao tratar de temas como amor, sexo e religião. O conservadorismo tão denunciado pelos críticos talvez tenha sido o combustível que impediu o cantor de perder a direção nesse longo caminho rumo a uma imortalidade na história da música brasileira. Mesmo tendo perdido a conexão com a juventude do Brasil do século XXI, Roberto Carlos é a voz de um país acomodado no berço das tradições. Voz excepcional, a propósito. Não fosse o grande compositor que é (ou pelo menos foi de 1964 a 1983), Roberto Carlos poderia ter se firmado somente como cantor de afinação e emissão exemplares. Por tudo isso, ofereça as flores em vida a Roberto Carlos nos 85 anos do artista. Ele merece todas as flores.
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